quinta-feira, 29 de maio de 2008

alguma ansiedade

Realidade absurda em que vivo. Tudo à volta parece ser o que não é. Salto como se estivesse parado. Fixo-me num movimento inquietante. Não sei se chova ou se ilumine. E por mais que tente diferenciar cada palavra, cada agir, tudo parece ser uma enorme lixeira. Cada suavidade que sai da minha acção é, no mundo de fora, um pedaço de lixo podre, seco, que peca por conteúdo. Gostava de criar mais simplicidade pura. Talvez seja preciso ser um pouco mais genuíno, um pouco mais apaixonado. Esforço-me por ser eu próprio, contudo esse esforço poderá não ser natural. Vivo nesta incógnita. Quero saber quem sou realmente. Quero saber se sou quem penso que sou, ou se o que penso que sou é apenas uma imagem elitista, idealista e de um enorme teor racional de uma ideologia fugaz que tenho pelo mundo. Quero saber se sou verdadeiro! Quero saber se o que sinto é genuíno! Se odeio por ódio, se amo por amor. Quero me Conhecer!

Francisco Noras

29/05/08

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Perdi a Memória

Procuro esquecendo

O que encontro lembrando,

Um leve pensamento

De um momento brando


Perco na memória

O cliché da palavra,

O certo é sabido,

Mas em mim já não se trava


Já não me recordo de nada!

Já não há desejo,

Nem fogo posto,

Nem água de uma vontade atada.


Melancolia, porquê?

Se já não há passado.

É alfabeto sem ABC,

É sofrer sem ter amado.


E cada nova

No meu sentido,

Refresca-me o conto

Do que não tenho sido.


E se não tenho sido o que fui,

Serei agora o que sou?

Mais do que uma memória,

Uma ideia que voou?


Todo o Santo dia,

O Sol nasce em contratempo,

Brilha como se sorrisse

Como se tivesse sentimento.

Eu nasci ontem,

E sou mais velho que o tempo.


Procuro o que já sei,

Mas o que eu sei, já eu perdi

O meu futuro é o passado,

Pois o presente, eu não venci.


Desencontrei-me com o Diabo.

E Deus? Eu nunca vi.

Bem? Mal? Talvez tenha sonhado.

Mas disso, já me esqueci.


Não me aflijo nesta peripécia,

O que perdi, eu nunca tive.

É um sujo de milho verde

É um verde nada que retive.


É uma porta sem passagem

Um segmento que não tem recta,

Um deserto numa miragem,

Um princípio que não tem meta.


É Como Leite escuro que ferve,

Uma Chama encarnada que gela,

É Orvalho sem gota,

É Quadro sem tela


É Língua que não fala,

Mente que não vê!

Corpo que não deseja,

Razão sem o porquê.


É Galego conformado

Pacifista Radical

Pinha sem Pinheiro

Aeroporto sem Terminal.


É derivada de constate

Raiz Quadrada de – Infinito.

Serenidade inquietante

É o Silêncio num Grito!


É viver de uma memória morta,

Nascer das cinzas do atrasado.

Escrever numa linha torta

Ler a vida no passado.

Francisco Noras

22/05/08

terça-feira, 20 de maio de 2008

algo

Apesar da sua transparência e singeleza, a água que bate na pedra, consume a vida como um sonho. A rocha que bate na água, deixa-se levar pela ignorância. A sua densidade é feita apenas de um sentido animal, e de uma escuridão total.

É preciso sentir. É preciso abrir os braços para o sentimento. É o caminho para o sonho. Contudo, não me posso deixar cair na armadilha do selvagem que há em mim. Um sentimento puro, que não é controlado, só me transforma num ser primário.

Conjunção é que se precisa. Pensar, Sentir. Já! Sem actividades extremistas. Pensar para sentir. Sentir Para Pensar.

sábado, 26 de abril de 2008

Intemporalidade

Este texto foi escrito com o objectivo de criar uma espécie de ‘resposta’ ao escrito de Diogo Pereira, intitulado “Imaginário em Movimento”. ( http://pensarnorte.blogspot.com/ )


Antes de avançar no desenho deste meu pensamento, quero clarificar a minha principal posição em relação a este tema: O Tempo é algo Intemporal. Pondo de parte a contradição que aqui apresentei, devemos reparar que é o único adjectivo que consigo caracterizar, com certeza, este fenómeno que intitulo como Tempo.

Em concordância com alguns pensamentos prévios, posso afirmar que o tempo não se materializa de uma forma concisa e exacta, como nós (Comunidade) tentamos tão arduamente parecer. Todos os segundos, todos os minutos, os dias, os meses, os anos, as décadas, todos esses períodos temporais são meras conjecturaras de exactidão, que se criaram para o Homem não se perder no “Tempo” (é de notar que uso aspas, pois a própria terminologia “tempo” implica um período, um prazo, uma ocasião própria[*]).

O “tempo”, ou seja, aquilo que se move na penumbra das nossas vidas, não tem forma nem tamanho. Não é gigante, nem pequeno. Não é rápido, nem lento. Não tem cheiro, nem imagem. Nem um próprio período temporal. Está por todo o lado, escondido com a sua não dimensão, num perpétuo movimento. É gigante e longo, quase gélido e inamovível, quando o Homem recorda. É seco, rápido e insignificante, quando o Homem esquece. E quando paramos o corpo e só ligamos o pensamento, o tempo é intemporal e deixa de ter sentido. O antes, o agora e o depois, fundem-se num só, porque este movimento não é linear, como muitos pensam ser. Este movimento é curvilíneo e recto num só momento. Uma trajectória não concebível, apenas relativa. E é nessa ferida que quero tocar: Na Relatividade do tempo, que leva à sua própria intemporalidade.

O tempo deriva consoante o conjunto existencial que consideramos. Falo, também, do tão conhecido tempo pessoal. Os minutos que parecem anos. Os anos que parecem minutos. Mas a realidade vai para além do “parecer”. A é realidade é simples: O tempo é maleável. E o próprio ser deixa-se moldar por ele. Com isto posso afirmar, com a certeza que apontaram o dedo à minha loucura, que podemos viver momentos infinitos, podemos viver vidas imortais, podemos perder-nos num simples pensamento e parar o movimento.

Einstein disse um dia que se alcançássemos uma velocidade igual ou superior a 3x108 metros por segundo, o nosso corpo e mente iriam ignorar, por completo, o efeito do tempo e iríamos entrar num estado de intemporalidade. Eu acredito que esse estado de intemporalidade existe constantemente, sendo o domínio do tempo de menos infinito a mais infinito. Na memória o tempo é intemporal, o que se aplica também à nossa vida, se recordarmos o famoso provérbio “Recordar é viver”.

Para finalizar, e em tom de resposta à pergunta de Diogo Pereira,

“O tempo não existiu, não foi, não nasceu. O tempo é, sempre esteve lá. Límpido, invisível, sem forma, a sorrir para nós”.

Francisco Noras

26/04/08



[*] Definição retirada de “ Dicionário da Língua Portuguesa”, da Editora “ Porto Editora”

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Vagabundo

Eu sinto que quero sentir,

Um pouco de amor, um pouco de ódio,

Um querer vagabundo que tudo devora


E a cada instante vou-te mentir,

A cada dia uma diferente historia,

E cada vontade numa diferente hora


Começa a voz a sair-me da boca,

E quando começo a gritar,

A pedir por um pouco de sangue,

Ou apenas por um pouco de ar


Paro,

Escuto,

Vejo as caras de luto…


Pensas mesmo que é só bondade?

Achas que vivemos só pelo respeito?

Venha a mim a dor, porque é com ela que me sinto satisfeito!

Vamos Odiar,

Cair, Raspar,

Despir, Mudar…


Venha a Felicidade, venha!
Onde está ela? Não a vejo!

E se vier? Qual será o seu traje?

Eu digo-te que o que vejo,

É mais que a ilusão, mais que o ultraje

É a prisão do querer,


Não te deixes prender!


Eu quero sentir tudo,

Quero correr o mundo,
Cair nos poços, saltar os muros,

Quero ser um vagabundo…

Francisco Noras

17/04/2008

Trabalho “Científico”

Este não é texto de provocação nem de chamada de atenção a nenhum grupo social conhecido na sociedade em que me insiro, apenas considero este texto como um trabalho “científico” de colocação de uma pergunta, recolha de dados e posterior criação de uma resposta.

Hoje acordei e reparei que pensava. Pareceu-me, à primeira vista, algo de novo e pouco usual. Nunca me tinha percebido a 100% do enorme potencial que tem este pedaço de matéria cinzenta, que se encontra alojado no meu crânio. Admito isto, com total conhecimento do peso da minha averiguação. Mas conto-vos, contudo, outra situação que me foi posteriormente criada nesta minha descoberta matinal. Relembrei-me, depois de o ter sentido, que o pensamento sempre esteve lá. Sim, é espantoso, mas é verdade. Desde que me lembro que penso. Sempre lutei contra o meu “Personal” senso comum (é favor ler a expressão com sotaque americano), para criar no meu ser ideias personalizadas, com pensamentos lógicos, que não fugissem à essência da minha pessoa, com a devida pitada de sentimento.

Talvez tenha sido hoje um dia especial, por ter tido tal noção de como funciona este bixinho. A verdade é que a única coisa que costumava reparar quando acordava, além do facto de estar vivo, era o facto de não estar morto. Mas nesta manha foi diferente. Descobri com exactidão de factos, que eu, Francisco Miguel Raimundo Noras, realmente penso, ou pelo menos dou a parecer que o faço. Abri os olhos e olhei para o tecto. Lá encontrei escrito as seguintes palavras: “É Hoje” (apenas alguns conseguiram se contextualizar no assunto em questão). Observei com cuidado cada essência da palavra, e veio-me à memória a razão para a qual escrevi tais palavras no tecto do meu quarto. Queria ter um incentivo para sonhar, para querer voar, para me libertar. “Hum…foi uma ideia original.”, Pensei cá eu com os meus botões. “Talvez até dê uns toques no pensamento.” Não! Parvoíce a minha! As atitudes nunca poderão ser a justificação do pensamento. Mas talvez a intenção pela qual agimos poderá sim justificar o trabalho mental. E foi a partir dessa sequência lógica, que tirei a minha primeira conclusão. Eu Penso.

Contudo, depois de tal descoberta, uma dúvida alastrante invadiu-me a alma. “Será que sou o único que possui tal dádiva?”. Claro que não, estupidez a minha. Existe também o meu ego (que neste momento encontra-se em proporções para além de gigantescas). Mas será que um ser extra “eu” condiciona nas suas características tal processo de criação psicológica? É certo que é possível tal facto. Eles andam aí. Alguns notados pelas suas “intenções”, outros apenas não são notados, sabemos por instinto que pensam, contudo são raros os que por aí andam. Então, a questão será mais: “Porque é que tantos negam ao prazer de pensar?”. Para descobrir tal saber, não foi preciso investigar muito. Bastou-me entrar um pouco no Mundo Encantado dos Calhaus, por outras palavras, na Escola Ginestal Machado. Não pensem, que com isto, pretendo ofender a integridade moral dessa tão eficiente Escola. Não, longe disso. Quero sim é devastar por completo o que resta de existência de alguns conjuntos de átomos que se tentam parecer com seres vivos, preenchendo diariamente o espaço vazio do recinto escolar em questão.

Observei com cuidado as atitudes deste animal. Devo admitir que foi um processo cansativo, mas deu alguns lucros informativos. Primeiro facto recolhido: O calhau emprega sempre, e unicamente, os verbos no infinitivo. Exemplos: “Bar, Comer!” ou então a famosa expressão.” Jogar Matrecos, Já!”. Segundo facto adquirido: O calhau tem atitudes violentas e, muitas vezes, inesperadas, mas sempre sistematizadas num horário rigoroso. Como exemplo temos: À hora de almoço, mas precisamente às 13 horas e 47 minutos, X, depois de ter perdido um “jogo de matrecos”, vira-se para Y, que por mero acaso passava pelo local, e, como se dum reflexo se trata-se, desfere-lhe um golpe com o punho, gritando: “Merda!Culpa Tua!. Mais tarde, passados exactamente 60 minutos do ocorrido (notem bem a exactidão horária que o Calhau tenta manter), vamos encontrar a reacção de Y a tal agressão, que, ao ver X de novo junto à área ligada ao campo de jogos, prega uma “valente cacetada” a X. Terceiro facto recebido: O Calhau nega sempre a dor. Estranho não é? Mas é um facto. Comprovo-o com exemplos: Y, que é um calhauzão, pois já possui alguns quilinhos a mais na sua conta, agride violentamente H, (posteriormente vim a perceber que se trata do rei dos calhaus). H, em estilo cinematográfico, vira a cara lentamente para Y e profere as seguintes palavras: “Não Dói!”. Mas Y não desiste meus amigos. E desta vez não é só um murro, é também um pontapé. Contudo H, sereno e confiante como sempre, engana a dor, exclamando mais uma vez: “Assim também não dói!”, ficando ambos neste processo preconcebido pela irracionalidade, horas a fio. Quarto e ultimo facto, mas não menos importante: O Calhau usa sempre a mesma roupa durante várias semanas, não dispensando a famosa “chuteira” de futebol e a camisa azul às riscas laranjas berrante. Porém existe uma razão para tal falta de higiene. O Calhau tem um sentido de oportunidade muito apurado, aproveitando portando à agua da chuva para lavar as suas roupas. Tendo com isso a não necessidade de mudar de roupa.

Agora já entendo. Nem todos estão concebidos para pensar. No Mundo Encantado dos Calhaus, a felicidade não se atinge com o saber, mas sim com a parvoíce, com a completa ignorância e fraca estabilidade mental. Totalmente Aceitável, tento em conta que a massa cinzenta mal funciona nesse mundo Mágico ( Nota: se algum calhau se encontra a ler este texto, é favor ir procurar ao dicionário a palavra “Ironia”). A violência é o caminho da felicidade meus caros irmãos Calhaus! (Sim, porque em tempos também fui um calhau, admito-o aqui; Era jovem e tal. Todos percebem). Sejam felizes acima de tudo, partindo braços, mandando grunhidos, usando “chuteiras”. Sejam Felizes. Esse é o meu último conselho.

“E o pequeno calhauzinho, ao olhar para a luz do saber, abriu a boca e arrotou um grunhido de estupidez”,

Livro dos contos quotidianos

Francisco Noras
17/4/2008

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Grito

Grito, grito, porque grito?

Quero explodir, quero expandir, quero ser tudo

Grito porque não o sou,

Sou cego, sou mudo


Grito, grito, porque grito?

Quero ser átomo, mas nem sou pó

Nem poeira, nem areia

Nem pedaço de algo,

Apenas triste, desumano, só


Grito, grito, porque grito?

Grito por ser a podridão de mim próprio

Nem estrutura sou! apenas lodo imundo

Sou barco inundando, sem remos

Sem origem, sem fim


Grito, grito, porque grito?

Grito porque sou nada, porque sou tudo

Grito porque a vida enche os meus pulmões,

Porque o corpo rebenta a cada instante

Grito por que sou um vácuo constante


E enquanto a minha existência durar,

Nunca hei de parar de Gritar!

Francisco Noras

Março/2008

A Destruição como Criação

Este texto provem de uma reflexão pessoal, na sequência dos eventos de 25 de Fevereiro de 2008, onde Luís Campos destruiu violentamente o seu telemóvel com um martelo no recinto escolar da Escola Dr. Ginestal Machado. Estas singelas palavras têm apenas o objectivo de esclarecer a verdadeira intenção de Luís Campos, que a meu ver elaborou um acto de coragem e ao mesmo tempo de amor-próprio.

O braço estende-se no alto. Na mão encontra-se o martelo. No espírito, a vontade de se libertar. A força alia-se à gravidade, e o impacto do ser esmaga a sociedade. O ecrã já não é mais que a fragmentação do nada, os seus pigmentos libertam vestígios de uma prisão, e a estrutura da ilusão é apenas uma ruína. O que parece ser, por breves instantes, apenas um acto irracional e emotivo, como o animalesco e selvagem gesto de destruir um telemóvel, é, visto com clareza de espírito, o despertar da aclamada passagem, o culminar da metamorfose, é o pensamento e a razão a cristalizarem-se da solução.

Não é unicamente a falta de contacto natural que está em causa, é também a ignorância com que caímos no enganador jogo da sociedade. Ela cria o que te diz ser a facilidade, mas a perdição é o objectivo de tal obra. Ela cria o que te diz ser a união, mas destroça-te o corpo com a solidão da monotonia. Ela cria o molde da felicidade, diz-te o que é certo, o que é errado, faz-te comer o que só ela sêmea, faz-te ver apenas o seu próprio cinema, faz-te amar somente a beleza por ela aclamada, e tu engoles a seco a poeira da sua criação. Estás preso, portanto, a imagens que não são reais. Tudo o que tu vês é uma mecanização da máquina destruidora da liberdade. E o pior é que o poder dela é tão imenso, tão controlador e manipulador, como uma criança que se deixa controlar pelo o seu ingénuo medo da escuridão, que talvez poucos ou nenhuns o conseguem deter. Quiçá apenas a loucura de uma garra que transforma a vontade de um acto animalesco e selvagem, no acto mais justo e correcto para o próprio “eu”. Talvez essa coragem que reside no interior do inconsciente mundo da razão, talvez essa força que se liberta de quaisquer pensamentos manipulados e corrompidos pela ferrugem da inveja e pela fome de manipulação, talvez seja esse e só mesmo esse o caminho para luz da liberdade.

Reduzir a pó o chamado meio das telecomunicações, ou direi antes “teledescomunicações”, permite ao pensamento criar asas que sobrevoem, não só o saber, mas também o viver. É só o contacto físico, visual e oral, numa prospecta conjunção, que cria a aproximação mais fidedigna da realidade do ser. Este divide-se em vários campos. O acto é um deles. E por muito que o pensamento mostre o funcionamento da estrutura psicológica, apenas os actos comprovam, na fria realidade, o Homem que somos. Quando o martelo choca com a matéria, o zumbido que se provoca, não é audível a todos. Apenas os que ouvem a razão, apenas os que amam o sentido da palavra “vida”, apenas os que compreendem a dor que se sente ao viver agarrado a grades de vivências sem lógica, apenas os que se querem libertar também, apenas esses podem ouvir a melodia do suave estrondo que foi criado no acto da destruição. Mas será que se destruiu, ou que se criou? A própria destruição é a criação de algo. Ao destruir-se a ilusão, criou-se a paisagem da vida. Ao destruir-se a hipócrita união e a desleal hierarquia deste mundo sem sentido, deste mundo virtual, criou-se a igualdade de pensamento e a verdadeira justiça da moralidade. Ao destruir-se a arma, criaram-se as ferramentas para construção. Ao destruir-se a prisão, criou-se a Liberdade. O martelo é apenas o pensamento. A força é o acto. E a mudança só nasce se o martelo rodar o mundo, e a força for constante e certa.

Várias marteladas consolidaram o momento. Sente-se do vazio desta perda, o encher da alma com os grãos do sentimento pura e da estrada genuína do verdadeiro conceito de viver. Depois disso, resta apenas o cartão vodafone, que não é mais que a semente que sêmea e cultiva as correntes da nossa própria desgraça. Os destroços permanecem esquecidos no recinto da memória, mas a liberdade, depois de atingida, jamais se enjaulará.

Francisco Noras

27/2/2008

Doce Dor

Doce Tristeza que desejo,

Deixa a alma podre e viciada

Cria na mente a fantasia do teu beijo,

Tentando desfigurar a alma desfigurada


A Tentação é mais forte que o sentido

E a queda no poço vazio é inevitável

Uma criança procurando na arma algum sentido,

Um Homem procurando na dor algo de admirável


É insaciável esta fome pelo abismo,

A vontade de destruição é total

A dor é agora mais que um prazer,

É um sentido Absurdo,

É uma força sem noção de bem ou de mal


E o caos parte apenas deste egoísmo,

Deste sentido cego e bruto,

Desta minha vontade de te beijar…

Francisco Noras

? /12/2007

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Pensamento Moço

São exactamente 23 horas e 44 minutos do dia 10 de Abril de 2008. Podemos concluir vários factos dessa afirmação, contudo o que eu gostaria mais de salientar é o facto de faltarem 15 minutos e meia dúzia de segundos para se consumar por completo o dia de 10 de Abril de 2008. A realidade é simples e bruta: Estes são os últimos minutos de vida deste pobre dia. Mas há algo de especial neste final de dia. E não me refiro a nenhuma situação de extrema intensidade emocional ou intelectual que me tenha ocorrido nestes instantes. Não. Apenas me refiro ao facto de estar a apresentar o meu corpo ao manifesto, absorvendo por completo a palavra de Zeca Afonso. Sim, sou um filho da madrugada. Pelo menos sinto-o dentro de mim. É certo que muitas vezes a madrugada desgasta e maltrata o espírito, mas a busca pelo verde oliva, que esbelta a magnitude da flor no ramo, é mais forte que a dor. Mas se o sinto cá dentro, talvez não o sinta lá fora. Apenas navego de pensamento em pensamento, deixando as vagas para depois. Talvez seja por não percorrer as praias do mar, por procurar apenas a manhã clara dentro de mim, que ainda sei de alguma amargura e dor. Não é uma situação da qual me orgulho, longe disso, aliás, criar incoerências entre o fazer e o pensar cria apenas desfalques na individualidade homogénea. Todavia, consigo desculpar o meu ser desta falha imperdoável, tendo isso apenas derivado de um pensamento. Acredito a 100% que para ver lá do cimo da montanha, precisamos primeiro de desenhar o mapa mental do que é e do que fazer. Para acender uma fogueira, precisamos de criar os mandamentos pessoais, criando níveis de importância hierarquizados. Se deixar-mos o agir seguir o seu rumo do nada, talvez a chama não seja de fogo. Talvez seja uma chama banal. Talvez nem seja uma chama. Talvez nem fumo seja. Talvez seja apenas nada. Acredito portanto, que a desculpa que com que me visto, tenha a pelugem banhada em movimentos lógicos. Consigo rotular a minha situação psicológica: “ Em remodelação definitiva. Abrimos brevemente.” Com isto pretendo dizer, que quando a minha mente abrir portas definitivas, irei agir de acordo com o pensamento. É certo que já o faço em vários aspectos, naqueles que considero inegavelmente certos e sabidos para mim. Entre estes, encontro aquele que me faz mover. O Sonho, e esse faz o mundo pular e avançar. António Gedião lá o dizia, e parecendo que não, acertou nas palavras. Desde pequeno que acreditei nas palavras de Rómulo de Carvalho. Eu era como a criança que procurava a sua bola. E um dia. A bola veio a saltitar, a sorrir e a chamar por mim. Nem aceitei sentar-me na pedra cinzenta. Não precisei de o fazer, foi como cola-tudo. Uma Conjunção instantânea. Não pensei, nem notei. De noite deitei-me como alguém à procura de um caminho. De manha acordei com a meta escrita no meu corpo. Admito contudo, que não esteja a ser racional. Digam, então, que sou sentimentalista. Digam, então, que sou um sonhador. Digam, então, que não apelo à lógica. Eu gritei com todo o fulgor que o Sonho é a minha paixão. E não sinto remorso do fazer. Se apenas a razão é a base do conhecimento, então prefiro ser o maior ignorante à fase da terra. QUERO SONHAR! DEIXEM-ME SONHAR BEM ALTO! E quando estiver bem alto, façam o favor de me empurrar. E só depois de me aleijar nessa queda, o sonho passará a ser realidade, e a realidade passará a ser o sonho. Ai como quero sentir a dor dessa queda! Como seria tão real esse sofrimento. Invadia-me o coração de contentamento. Como era doce essa dor.

A verdade é que já passa da meia-noite e eu mal me despedi do dia 10. O certo é que abri o dia 11 com o pé direito (no meu caso com o pé esquerdo; quem me conhece perceberá). A chama do encéfalo está a dar vida à noite inteira e a madrugada ecoa, na noite que vem, o chamamento da pomba branca. São mais que palavras, Zeca. São mais que princípios. São mais que Ideais. São partes de nós. Pelo menos para mim. E sei que não sou o único. Pelo menos o espero. Mas vamos voltar ao motivo pelo qual decidi exercitar os meus dedos nesta magnifica arquitectura moderna, que é a minha máquina informática. Possivelmente, ao contrário de alguns dos meus confraternizastes escolares, tenho tirado algum tempo a esta vida para por um carimbo de pensamento em tudo o que se move, com o objectivo de me conhecer a mim próprio. Mas nem sempre estive neste constante alerta. Nunca consegui diferenciar, e ao mesmo tempo misturar, o sentimento do pensamento, como o tenho feito ultimamente. Aposto all-in nesse argumento, para ser a razão de estar separar tanto a minha acção do meu ser. Talvez seja bluff do meu inconsciente. Ou então é o universo que me quer induzir em erro. O que sinto é simples. Quero construir as estradas. Quero calcetar o caminho. De seguida, e só de seguida, irei navegar de vaga em vaga. E aí nem o vento cortara as amarras com mais força do que Eu. Todavia o motor ainda permanece em limpeza. E quando o carro trabalha sem motor, o piloto mal consegue ter mão nele. Passo-a-passo tornarei a distancia mais curta. A aplicação das ideias será mais certa. Só assim poderei amar, sonhar, criar, pensar, escutar, tudo num só sentido. Só assim poderei ser o Siddhartha do meu mundo. E se escrevo para ti, é porque te quero ouvir. E se estás a ler o que te escrevo, é porque queres que eu te oiça. Ouve-me para me descobrires. Eu ouvir-te-ei para me descobrir a mim próprio e acabar com a limpeza do motor. Quero ouvir tudo. Quero que tudo me oiça. Quero ser um Tribalista e ser brutalmente possuído pelo Mundo.

Suspiro.

Suspiro, porque enquanto não acabo de construir a ponte para o outro lado, não te consigo acompanhar no romper da aurora. Tu sabes o quanto amava ir a proa com a minha galera, seguidos de uma boa estrela. Direccionados para a Vitoria, passando pelo rosto a fresca brisa, a moira encantada. Mas não desanimo. O “Volkswagen pão-de-forma” espera por mim. E nele colocarei o meu motor. Na minha barca navegarei até ao infinito, até ao meu Sonho. Na mão esquerda trago os meus olhos. Na direita o meu coração. Atrás de mim o meu pilar. Então isso não acontece, escrevo-te com a vontade de ser escutado, para poder seguir a boa estrela.

“Para além de tudo resta o sonho. Quem não o tem, contenta-se com o tudo. Mas desse tudo, nada fica. E quem com o sonho fica, fica com tudo. Porque o sonho não é o nada, o sonho é o tudo.”

Francisco Noras

11/04/08

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Passo-a-Passo

Primeiro,

Passo a água pelo corpo,

Que a frescura queima a dor.

Queima a dor,

Mas só um pouco,

Que a dor controla o corpo

E a água só o ardor.


Depois,

Troco a água pelo vinho

O rancor pela amargura,

Que a dor embriagada em vinho

Floresce no seu fermento,

E só por um momento,

Alegrasse, vive e dura.


De manha,

Acordo mergulhado em Lucidez

E da dor nasce o remorso.

Na boca, talvez um pouco de acidez

No corpo, talvez um pouco de destroço

Reclama então a senhora vontade

Por um pouco de dor, de raiva, de sujidade.


Finalmente,

Banho-me em sangue quente

Para o calor acordar a alma,

Que a alma permanece calma,

E a calma atormenta a mente.


O Corpo?

Esse ficou dormente.

Um patamar transparente.


A dor?

É agora inexistente.

Aprisionada num pensamento consciente.

Francisco Noras

1/04/2008