Hoje acordei e reparei que pensava. Pareceu-me, à primeira vista, algo de novo e pouco usual. Nunca me tinha percebido a 100% do enorme potencial que tem este pedaço de matéria cinzenta, que se encontra alojado no meu crânio. Admito isto, com total conhecimento do peso da minha averiguação. Mas conto-vos, contudo, outra situação que me foi posteriormente criada nesta minha descoberta matinal. Relembrei-me, depois de o ter sentido, que o pensamento sempre esteve lá. Sim, é espantoso, mas é verdade. Desde que me lembro que penso. Sempre lutei contra o meu “Personal” senso comum (é favor ler a expressão com sotaque americano), para criar no meu ser ideias personalizadas, com pensamentos lógicos, que não fugissem à essência da minha pessoa, com a devida pitada de sentimento.
Talvez tenha sido hoje um dia especial, por ter tido tal noção de como funciona este bixinho. A verdade é que a única coisa que costumava reparar quando acordava, além do facto de estar vivo, era o facto de não estar morto. Mas nesta manha foi diferente. Descobri com exactidão de factos, que eu, Francisco Miguel Raimundo Noras, realmente penso, ou pelo menos dou a parecer que o faço. Abri os olhos e olhei para o tecto. Lá encontrei escrito as seguintes palavras: “É Hoje” (apenas alguns conseguiram se contextualizar no assunto em questão). Observei com cuidado cada essência da palavra, e veio-me à memória a razão para a qual escrevi tais palavras no tecto do meu quarto. Queria ter um incentivo para sonhar, para querer voar, para me libertar. “Hum…foi uma ideia original.”, Pensei cá eu com os meus botões. “Talvez até dê uns toques no pensamento.” Não! Parvoíce a minha! As atitudes nunca poderão ser a justificação do pensamento. Mas talvez a intenção pela qual agimos poderá sim justificar o trabalho mental. E foi a partir dessa sequência lógica, que tirei a minha primeira conclusão. Eu Penso.
Contudo, depois de tal descoberta, uma dúvida alastrante invadiu-me a alma. “Será que sou o único que possui tal dádiva?”. Claro que não, estupidez a minha. Existe também o meu ego (que neste momento encontra-se em proporções para além de gigantescas). Mas será que um ser extra “eu” condiciona nas suas características tal processo de criação psicológica? É certo que é possível tal facto. Eles andam aí. Alguns notados pelas suas “intenções”, outros apenas não são notados, sabemos por instinto que pensam, contudo são raros os que por aí andam. Então, a questão será mais: “Porque é que tantos negam ao prazer de pensar?”. Para descobrir tal saber, não foi preciso investigar muito. Bastou-me entrar um pouco no Mundo Encantado dos Calhaus, por outras palavras, na Escola Ginestal Machado. Não pensem, que com isto, pretendo ofender a integridade moral dessa tão eficiente Escola. Não, longe disso. Quero sim é devastar por completo o que resta de existência de alguns conjuntos de átomos que se tentam parecer com seres vivos, preenchendo diariamente o espaço vazio do recinto escolar em questão.
Observei com cuidado as atitudes deste animal. Devo admitir que foi um processo cansativo, mas deu alguns lucros informativos. Primeiro facto recolhido: O calhau emprega sempre, e unicamente, os verbos no infinitivo. Exemplos: “Bar, Comer!” ou então a famosa expressão.” Jogar Matrecos, Já!”. Segundo facto adquirido: O calhau tem atitudes violentas e, muitas vezes, inesperadas, mas sempre sistematizadas num horário rigoroso. Como exemplo temos: À hora de almoço, mas precisamente às 13 horas e 47 minutos, X, depois de ter perdido um “jogo de matrecos”, vira-se para Y, que por mero acaso passava pelo local, e, como se dum reflexo se trata-se, desfere-lhe um golpe com o punho, gritando: “Merda!Culpa Tua!. Mais tarde, passados exactamente 60 minutos do ocorrido (notem bem a exactidão horária que o Calhau tenta manter), vamos encontrar a reacção de Y a tal agressão, que, ao ver X de novo junto à área ligada ao campo de jogos, prega uma “valente cacetada” a X. Terceiro facto recebido: O Calhau nega sempre a dor. Estranho não é? Mas é um facto. Comprovo-o com exemplos: Y, que é um calhauzão, pois já possui alguns quilinhos a mais na sua conta, agride violentamente H, (posteriormente vim a perceber que se trata do rei dos calhaus). H, em estilo cinematográfico, vira a cara lentamente para Y e profere as seguintes palavras: “Não Dói!”. Mas Y não desiste meus amigos. E desta vez não é só um murro, é também um pontapé. Contudo H, sereno e confiante como sempre, engana a dor, exclamando mais uma vez: “Assim também não dói!”, ficando ambos neste processo preconcebido pela irracionalidade, horas a fio. Quarto e ultimo facto, mas não menos importante: O Calhau usa sempre a mesma roupa durante várias semanas, não dispensando a famosa “chuteira” de futebol e a camisa azul às riscas laranjas berrante. Porém existe uma razão para tal falta de higiene. O Calhau tem um sentido de oportunidade muito apurado, aproveitando portando à agua da chuva para lavar as suas roupas. Tendo com isso a não necessidade de mudar de roupa.
Agora já entendo. Nem todos estão concebidos para pensar. No Mundo Encantado dos Calhaus, a felicidade não se atinge com o saber, mas sim com a parvoíce, com a completa ignorância e fraca estabilidade mental. Totalmente Aceitável, tento em conta que a massa cinzenta mal funciona nesse mundo Mágico ( Nota: se algum calhau se encontra a ler este texto, é favor ir procurar ao dicionário a palavra “Ironia”). A violência é o caminho da felicidade meus caros irmãos Calhaus! (Sim, porque em tempos também fui um calhau, admito-o aqui; Era jovem e tal. Todos percebem). Sejam felizes acima de tudo, partindo braços, mandando grunhidos, usando “chuteiras”. Sejam Felizes. Esse é o meu último conselho.
“E o pequeno calhauzinho, ao olhar para a luz do saber, abriu a boca e arrotou um grunhido de estupidez”,
Livro dos contos quotidianos
Francisco Noras
17/4/2008
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