Este texto provem de uma reflexão pessoal, na sequência dos eventos de 25 de Fevereiro de 2008, onde Luís Campos destruiu violentamente o seu telemóvel com um martelo no recinto escolar da Escola Dr. Ginestal Machado. Estas singelas palavras têm apenas o objectivo de esclarecer a verdadeira intenção de Luís Campos, que a meu ver elaborou um acto de coragem e ao mesmo tempo de amor-próprio.
O braço estende-se no alto. Na mão encontra-se o martelo. No espírito, a vontade de se libertar. A força alia-se à gravidade, e o impacto do ser esmaga a sociedade. O ecrã já não é mais que a fragmentação do nada, os seus pigmentos libertam vestígios de uma prisão, e a estrutura da ilusão é apenas uma ruína. O que parece ser, por breves instantes, apenas um acto irracional e emotivo, como o animalesco e selvagem gesto de destruir um telemóvel, é, visto com clareza de espírito, o despertar da aclamada passagem, o culminar da metamorfose, é o pensamento e a razão a cristalizarem-se da solução.
Não é unicamente a falta de contacto natural que está em causa, é também a ignorância com que caímos no enganador jogo da sociedade. Ela cria o que te diz ser a facilidade, mas a perdição é o objectivo de tal obra. Ela cria o que te diz ser a união, mas destroça-te o corpo com a solidão da monotonia. Ela cria o molde da felicidade, diz-te o que é certo, o que é errado, faz-te comer o que só ela sêmea, faz-te ver apenas o seu próprio cinema, faz-te amar somente a beleza por ela aclamada, e tu engoles a seco a poeira da sua criação. Estás preso, portanto, a imagens que não são reais. Tudo o que tu vês é uma mecanização da máquina destruidora da liberdade. E o pior é que o poder dela é tão imenso, tão controlador e manipulador, como uma criança que se deixa controlar pelo o seu ingénuo medo da escuridão, que talvez poucos ou nenhuns o conseguem deter. Quiçá apenas a loucura de uma garra que transforma a vontade de um acto animalesco e selvagem, no acto mais justo e correcto para o próprio “eu”. Talvez essa coragem que reside no interior do inconsciente mundo da razão, talvez essa força que se liberta de quaisquer pensamentos manipulados e corrompidos pela ferrugem da inveja e pela fome de manipulação, talvez seja esse e só mesmo esse o caminho para luz da liberdade.
Reduzir a pó o chamado meio das telecomunicações, ou direi antes “teledescomunicações”, permite ao pensamento criar asas que sobrevoem, não só o saber, mas também o viver. É só o contacto físico, visual e oral, numa prospecta conjunção, que cria a aproximação mais fidedigna da realidade do ser. Este divide-se em vários campos. O acto é um deles. E por muito que o pensamento mostre o funcionamento da estrutura psicológica, apenas os actos comprovam, na fria realidade, o Homem que somos. Quando o martelo choca com a matéria, o zumbido que se provoca, não é audível a todos. Apenas os que ouvem a razão, apenas os que amam o sentido da palavra “vida”, apenas os que compreendem a dor que se sente ao viver agarrado a grades de vivências sem lógica, apenas os que se querem libertar também, apenas esses podem ouvir a melodia do suave estrondo que foi criado no acto da destruição. Mas será que se destruiu, ou que se criou? A própria destruição é a criação de algo. Ao destruir-se a ilusão, criou-se a paisagem da vida. Ao destruir-se a hipócrita união e a desleal hierarquia deste mundo sem sentido, deste mundo virtual, criou-se a igualdade de pensamento e a verdadeira justiça da moralidade. Ao destruir-se a arma, criaram-se as ferramentas para construção. Ao destruir-se a prisão, criou-se a Liberdade. O martelo é apenas o pensamento. A força é o acto. E a mudança só nasce se o martelo rodar o mundo, e a força for constante e certa.
Várias marteladas consolidaram o momento. Sente-se do vazio desta perda, o encher da alma com os grãos do sentimento pura e da estrada genuína do verdadeiro conceito de viver. Depois disso, resta apenas o cartão vodafone, que não é mais que a semente que sêmea e cultiva as correntes da nossa própria desgraça. Os destroços permanecem esquecidos no recinto da memória, mas a liberdade, depois de atingida, jamais se enjaulará.
Francisco Noras
27/2/2008
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