sexta-feira, 11 de abril de 2008

Pensamento Moço

São exactamente 23 horas e 44 minutos do dia 10 de Abril de 2008. Podemos concluir vários factos dessa afirmação, contudo o que eu gostaria mais de salientar é o facto de faltarem 15 minutos e meia dúzia de segundos para se consumar por completo o dia de 10 de Abril de 2008. A realidade é simples e bruta: Estes são os últimos minutos de vida deste pobre dia. Mas há algo de especial neste final de dia. E não me refiro a nenhuma situação de extrema intensidade emocional ou intelectual que me tenha ocorrido nestes instantes. Não. Apenas me refiro ao facto de estar a apresentar o meu corpo ao manifesto, absorvendo por completo a palavra de Zeca Afonso. Sim, sou um filho da madrugada. Pelo menos sinto-o dentro de mim. É certo que muitas vezes a madrugada desgasta e maltrata o espírito, mas a busca pelo verde oliva, que esbelta a magnitude da flor no ramo, é mais forte que a dor. Mas se o sinto cá dentro, talvez não o sinta lá fora. Apenas navego de pensamento em pensamento, deixando as vagas para depois. Talvez seja por não percorrer as praias do mar, por procurar apenas a manhã clara dentro de mim, que ainda sei de alguma amargura e dor. Não é uma situação da qual me orgulho, longe disso, aliás, criar incoerências entre o fazer e o pensar cria apenas desfalques na individualidade homogénea. Todavia, consigo desculpar o meu ser desta falha imperdoável, tendo isso apenas derivado de um pensamento. Acredito a 100% que para ver lá do cimo da montanha, precisamos primeiro de desenhar o mapa mental do que é e do que fazer. Para acender uma fogueira, precisamos de criar os mandamentos pessoais, criando níveis de importância hierarquizados. Se deixar-mos o agir seguir o seu rumo do nada, talvez a chama não seja de fogo. Talvez seja uma chama banal. Talvez nem seja uma chama. Talvez nem fumo seja. Talvez seja apenas nada. Acredito portanto, que a desculpa que com que me visto, tenha a pelugem banhada em movimentos lógicos. Consigo rotular a minha situação psicológica: “ Em remodelação definitiva. Abrimos brevemente.” Com isto pretendo dizer, que quando a minha mente abrir portas definitivas, irei agir de acordo com o pensamento. É certo que já o faço em vários aspectos, naqueles que considero inegavelmente certos e sabidos para mim. Entre estes, encontro aquele que me faz mover. O Sonho, e esse faz o mundo pular e avançar. António Gedião lá o dizia, e parecendo que não, acertou nas palavras. Desde pequeno que acreditei nas palavras de Rómulo de Carvalho. Eu era como a criança que procurava a sua bola. E um dia. A bola veio a saltitar, a sorrir e a chamar por mim. Nem aceitei sentar-me na pedra cinzenta. Não precisei de o fazer, foi como cola-tudo. Uma Conjunção instantânea. Não pensei, nem notei. De noite deitei-me como alguém à procura de um caminho. De manha acordei com a meta escrita no meu corpo. Admito contudo, que não esteja a ser racional. Digam, então, que sou sentimentalista. Digam, então, que sou um sonhador. Digam, então, que não apelo à lógica. Eu gritei com todo o fulgor que o Sonho é a minha paixão. E não sinto remorso do fazer. Se apenas a razão é a base do conhecimento, então prefiro ser o maior ignorante à fase da terra. QUERO SONHAR! DEIXEM-ME SONHAR BEM ALTO! E quando estiver bem alto, façam o favor de me empurrar. E só depois de me aleijar nessa queda, o sonho passará a ser realidade, e a realidade passará a ser o sonho. Ai como quero sentir a dor dessa queda! Como seria tão real esse sofrimento. Invadia-me o coração de contentamento. Como era doce essa dor.

A verdade é que já passa da meia-noite e eu mal me despedi do dia 10. O certo é que abri o dia 11 com o pé direito (no meu caso com o pé esquerdo; quem me conhece perceberá). A chama do encéfalo está a dar vida à noite inteira e a madrugada ecoa, na noite que vem, o chamamento da pomba branca. São mais que palavras, Zeca. São mais que princípios. São mais que Ideais. São partes de nós. Pelo menos para mim. E sei que não sou o único. Pelo menos o espero. Mas vamos voltar ao motivo pelo qual decidi exercitar os meus dedos nesta magnifica arquitectura moderna, que é a minha máquina informática. Possivelmente, ao contrário de alguns dos meus confraternizastes escolares, tenho tirado algum tempo a esta vida para por um carimbo de pensamento em tudo o que se move, com o objectivo de me conhecer a mim próprio. Mas nem sempre estive neste constante alerta. Nunca consegui diferenciar, e ao mesmo tempo misturar, o sentimento do pensamento, como o tenho feito ultimamente. Aposto all-in nesse argumento, para ser a razão de estar separar tanto a minha acção do meu ser. Talvez seja bluff do meu inconsciente. Ou então é o universo que me quer induzir em erro. O que sinto é simples. Quero construir as estradas. Quero calcetar o caminho. De seguida, e só de seguida, irei navegar de vaga em vaga. E aí nem o vento cortara as amarras com mais força do que Eu. Todavia o motor ainda permanece em limpeza. E quando o carro trabalha sem motor, o piloto mal consegue ter mão nele. Passo-a-passo tornarei a distancia mais curta. A aplicação das ideias será mais certa. Só assim poderei amar, sonhar, criar, pensar, escutar, tudo num só sentido. Só assim poderei ser o Siddhartha do meu mundo. E se escrevo para ti, é porque te quero ouvir. E se estás a ler o que te escrevo, é porque queres que eu te oiça. Ouve-me para me descobrires. Eu ouvir-te-ei para me descobrir a mim próprio e acabar com a limpeza do motor. Quero ouvir tudo. Quero que tudo me oiça. Quero ser um Tribalista e ser brutalmente possuído pelo Mundo.

Suspiro.

Suspiro, porque enquanto não acabo de construir a ponte para o outro lado, não te consigo acompanhar no romper da aurora. Tu sabes o quanto amava ir a proa com a minha galera, seguidos de uma boa estrela. Direccionados para a Vitoria, passando pelo rosto a fresca brisa, a moira encantada. Mas não desanimo. O “Volkswagen pão-de-forma” espera por mim. E nele colocarei o meu motor. Na minha barca navegarei até ao infinito, até ao meu Sonho. Na mão esquerda trago os meus olhos. Na direita o meu coração. Atrás de mim o meu pilar. Então isso não acontece, escrevo-te com a vontade de ser escutado, para poder seguir a boa estrela.

“Para além de tudo resta o sonho. Quem não o tem, contenta-se com o tudo. Mas desse tudo, nada fica. E quem com o sonho fica, fica com tudo. Porque o sonho não é o nada, o sonho é o tudo.”

Francisco Noras

11/04/08

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